Não conheço ninguém que faça canjica* tão bem quanto a minha mãe, dona Deja. Quando éramos pequenos, eu e meus irmãos acompanhávamos todo o ritual de preparação: ralar as espigas de milho novinho uma a uma, passar pela enorme peneira de palha (ou "urupema", como se diz na minha terra), misturar aos demais ingredientes e levar ao fogo. Aí ela pedia que nós nos revezássemos para mexer o caldo amarelinho sem parar, até que começasse a borbulhar e o cheiro doce se espalhasse pela casa inteira. Lembro que eu achava graça porque quando fervia, a canjica parecia encher-se de pequenos vulcões que espirravam pra todo lado, então mexíamos com mais vigor para evitar que nos queimasse. Era bem divertido! Na hora de servir, minha mãe nunca gostou de colocar toda a canjica em uma travessa: saía distribuindo em vários pratos e tigelas que colocava sobre a mesa e então polvilhava tudo com canela. Pronto. A mesa da cozinha, para mim, era a visão do paraíso, porque tinha o cheiro e o sabor da minha infância. Esse ritual prossegue até hoje e minha mãe faz questão de avisar às filhas que não moram com ela (inclusive eu): "estou fazendo canjica...", para que cada uma possa buscar sua porção. Ah, a receita não é segredo de família não, posso até enviar para quem quiser testar... mas duvido que fique igual, porque carinho de mãe (o ingrediente principal) não dá pra copiar, né?
(*Em outros estados, também conhecida como curau)
P.S.: Para empatar com a canjica, somente o arroz-doce que ela faz, que o meu amigo Joca Oeiras me prometeu provar um dia...
- Postado por: Oda Mae às 07:48
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