21/05/2008
"Será que o tempo sempre disfarça? Tomara um dia isso tudo passa..." (Leoni)
Amassou a folha de papel e jogou num canto, sem olhar. Pensou um pouco, foi lá e a resgatou entre tantas outras. Ainda bem que não jogou no lixo, aí não teria coragem de pegar de volta e desamassar apressadamente, as letras agora trêmulas como a mão que as escrevera minutos antes. Ia jogar mesmo fora? Covarde... ia nada! Fizesse o que fizesse, nada apagaria a lembrança dos dedos dele tamborilando no sofá, os olhos fixos no corredor esperando a hora em que ela, finalmente, apareceria. O torpor causado pelo cigarro imaginário fazia-o escorregar e ficar ali, largado, até exibir o velho sorrisinho cúmplice e os dedos pularem do sofá para o cabelo curto dela. Olhos abertos, ele acompanhava o pequeno crucifixo pular do seu pescoço para a boca que ela abria. Era sempre assim: sem palavras, seus sorrisos encaixando-se como se fossem as duas metades mais perfeitas que já existiram, como se aquele fosse todo o seu mundo e aqueles dias não fossem acabar nunca mais.
Por um breve instante, ela se permitira esquecer que algumas pessoas, ao contrário das folhas de papel, não se deixavam resgatar assim tão fácil...
- Postado por: Rosa Magalhães às 10:05
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